sábado, 19 de janeiro de 2013

O tempo é dança de uma folha entregando-se lenta ao chão.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ANUNCIAÇÃO

Todos os dias podem ser anunciados dia de recomeço, novinho em folha. Fitando o céu azul, podemos nos lembrar do frescor da infância e sentir no corpo inteiro que, acima do caos, existe uma ordem irrevogável: a natureza primordial.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Reverencio o incompreensível. É preciso humildade para permenecer diante do incompreensivel sem criar explicações ou justificativas, apenas respeitando e vivendo os movimentos da vida

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eu era uma vez...

Menina de uns treze anos, quando sentia o mundo pelo avesso como hoje e precisava de respostas, sem nem mesmo ter as perguntas, eu descia até o fim da rua onde morava, sentava numa escadaria e ficava olhando pra o céu noturno. Lá pelas tantas eu começava a cantar e a conversar com as estrelas. Não posso dizer que encontrava respostas, apenas saía de lá mais alimentada de imensidão e mais amiga dos des-sentindos. Quantas vezes fiz isso? Apenas sei que hoje precisava da minha escadaria de novo. Sentaria no terceiro degrau e sentiria aquele cheiro de esperança, o presente expandido e o medo diluído. Contaria-me sobre minha ingenuidade acerca do futuro. Acariciaria meus cabelos e faria-me uma trança. E quem sabe na volta pra casa, de novo, acabaria a luz, e a gente toda da rua reuniria-se nas portas de suas casas. A gente falaria de algo que não angústias ou à fazeres. Ah sim! Compartilharíamos algo engraçado sobre o dia que passou, sem pretensões. Poderíamos até nos sentar no meio-fio ou - os mais jovens - ter a idéia de atear fogo num bombril e girar. Aí, depois de ficar um tempo sem esperar nada, a luz voltaria e ouviríamos um grito geral de comemoração misturado com falas e risos. Eu entraria em casa e iria procurar algo pra comer naquela geladeira azul e descascada que às vezes me dava choque. Se desse choque, aproveitaria para chorar um pouquinho e ir deitar aliviada. Quem sabe antes de dormir eu abriria aquele livro incrível que tinha a descrição de orgasmo mais linda - científica e poética - que já li. Ficaria rosada e quente e depois adormeceria nos braços de minhas emoções suaves e despreocupadas.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A gratidão à vida amplia as dimensões do dia, estica o fio das horas. A neblina deitada sobre o lago é também a bruma que abraça a manhã. Eu olhando tudo sou também tudo olhando eu.
Toda alegria é de ser fiel à borboleta azul que habita em mim.
Que fazer com essas coloridas caixinhas de surpresa que guardo no peito? Desembrulho e brinco?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Dança de liberdade

Uma libélula pousou em mim. Seu vôo era uma dança de liberdade e eu a admirei assim. Eu não a pedi que escolhesse meu corpo para seu pouso embora me sentisse muito honrada com sua visita. Suas cores me alegraram de todas as formas e sei que meus olhos brilharam em sua presença. Dei-lhe meu sorriso, dei-lhe minha inspiração e minha expiração. Dei-lhe ainda algo pequeno e delicado: a humilde vontade de expressar sempre a verdade nos gestos. Então, depois de experimentar a graça de dar, escolhi receber - de mim mesma - a graça de aprender a amar o pouso e o vôo e a não desejar para a libélula nada além do que ela desejar à si mesma. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

"Tu não podes trilhar um caminho sem ser tu mesmo o caminho". (Buda)

sábado, 11 de junho de 2011

Conversa de beira de rio

Tarde morna.
- O que o outro lado do rio tem a nos dizer?
- O que você diria sobre o que o outro lado do rio tem a nos dizer?
- Agora você entrou dentro de mim.

sábado, 4 de junho de 2011

Cada passo uma tarde para sentir meu recomeço. Mais um por do sol que adormeço para acordar em outro lugar desconhecido. Saberei dar a mão àquela que dentro de mim conhece o caminho?

terça-feira, 24 de maio de 2011

A manhã acolhe o canto de minhas lembranças, um perfume de jasmins inunda minhas esperanças. Fresca manhã, quando voltarei a ser-te?

Silêncio. Preciso ninar meu mundo e despertar profundo na aurora do presente.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Poesia na calçada

Andando ontem pelo centro da cidade, passava por pessoas que olhavam para todos os lados e pareciam perdidas em seus pensamentos. Pareciam estar suspensas, num mundo que não era o concreto e nem o real, nem era o mundo interno delas. Pareciam sem lugar, perdidas, sem feições, sem presença, sem expressão. A correria era quase insana, as pessoas trombavam umas nas outras sem nunca se encontrarem, nem pelo olhar. Nada denotava presença, a não ser um casal bem velhinho, sentado em baquinhos do lado esquerdo da calçada. O velho estava de chapéu, cabeça baixa e olhos fechados. Tocava sanfona. Estava refugiado no universo que se expandia no vai-vem dedilhado de seu instrumento - desejei refugiar-me ali também. A velha recostada em seu companheiro, assistia ao mundo incerto e passageiro ao som da música certa e conhecida. Em frente a eles um caixote de madeira que aparava uma panelinha de alumínio amassada, que fazia as vezes de mão estendida esperando moedas. No meio da calçada, era a poesia que ninguém via. Era o alento da beleza em sua forma mais simples. Aquele velhinho não toca sanfona para ganhar moedas, pensei, mas sim ganha moedas para tocar. Uma situação é bem diferente da outra. Se ele tocasse para ganhar moedas, sua finalidade última seriam as moedas. Mas ganhando moedas para tocar, sua finalidade última é tocar. Assim pensei, mas estava enganada. Quando me aproximei mais, vi que a panelinha estava vazia e já era à tardinha. Compreendi, então. Aquele velhinho tocava sanfona simplesmente para tocar sanfona. A existência entoada naqueles sons acalentavam seu espírito e aquela rua de alma conturbada. A panelinha era apenas um disfarce humilde, recobrindo sua generosidade e igualando-o àqueles passantes que seguiam sem sentido ou direção. Na verdade os esmoleiros éramos nós que perambulávamos desordenadamente, perdidos. A moeda preciosa era aquela imagem musicada, abençoando o mundo, afagando os passantes, sustentando um fio de esperança no canto da calçada em frente à estação rodoviária de Brasília.

domingo, 13 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

Criação é oração

Fazer arte é uma espécie de devoção. 

Vi o rio

Foi hoje.
Olhei a água que saía da torneira e vi o rio. Vi mesmo! Como se o rio ali estive derramando seu percurso diante de mim. Imenso e curativo corpo d`água fresco, flexível e transparente. Quanta generosidade - pensei! -, o rio correr até onde estou e derramar-se na medida certa para saciar minha sede. 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Reverência à palavra que acorda

De repente um conjunto de palavras ganham um sentido novo. Uma frase que eu não compreendia parece se embeber de vida e salta diante dos meus olhos indicando caminhos. Nem de longe imaginaria que esse agrupamento de sons e sentidos diria tanto sobre meu modo de organizar a vida e escolher meus rumos. Reverencio os sons que interrompem o silêncio acordando alguma parte em mim.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Espera

Esperei-te para arrumar nossa casinha 
e montarmos a árvore de natal. 
Esperei-te ver em mim uma possibilidade iluminada. 
De espera, mais de três mil dias se passaram.
Será que haverá tempo para tirar a poeira de nossa vida?



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sorte é ter um poeta por perto

Hoje no café da manhã comi de sua poesia e bebi de minhas lágrimas. Fui lendo e pensando, pensando e lendo. Nas palavras de seu mar, mergulho, fui sentindo e sentindo, chorando e lendo. Pura lembrança que sou, vi meus olhos pra dentro mirando tudo o que é saudade, mistura do que me passou com o bonito que ainda não vi. Me explico: é que sonho com belezas. Mas não é sonho não - sua poesia me contou. Sorte é ter um poeta por perto.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Com sol e sem ensaio

Sabe aqueles dias em que a gente não quer ensaiar a palavra certa. Melhor se todos os dias fossem assim. Ensaiar é perder a espontaneidade - jeito de ser sem ensaio. Espontaneidade pede coragem pra gente ser assim, nem demais nem de menos, simplesmente a gente, bonito e feio ao mesmo tempo. É seguir o coração, é quebrar as regras para não medir o riso - entrega ao que se é. 

Sei não, pra mim gente bonita é gente espontânea. Nunca fui muito boa nessas coisas de  não ser quem sou. O que sinto salta de mim pela boca, pelos olhos e pelo corpo. E se tento disfarçar, adoeço da alma.

Já te aconteceu adoecer da alma? Passou por aquele sintoma de seguir as normas sociais mais que seu coração? É... dá em gente. E como sou gente, deu em mim. E digo com experiência de causa: é de doer. É um corte na auto-confiança e demora para cicatrizar. E tem mais: deixa marca. Daquelas que não há o que apague.

Mas sabe, se a gente pensar bem, não é o caso de apagar não. Bom é deixar a cicatriz banhar-se ao sol. Esse é o melhor tratamento. Durante a aplicação é indicado que se respire, respire e respire. Deixe o sol entrar por todos os poros para aquecer a alma. Assim ela vai se curando. E a marca de repente é acolhida como parte da gente, aquele sinal que nos faz diferente. 



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Intitulável

Acolho amorosamente minha dor, acalento minha saudade e amparo-me no céu, esse berço infinito onde deito meu olhar em respiração profunda. 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mãedade

Saudade de mãe. Daquela mãe que sempre imaginei. Aquela mãe em cujo colo eu tivesse certeza que poderia colher as palavras certas. Onde eu pudesse me deitar e só respirar, sem ter que provar nada. Onde eu fosse bonita apenas por existir. Onde não houvesse razões, motivos ou explicações a dar ou a receber. Onde existir fosse o bastante para ser feliz. 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sossegar a busca

É difícil sossegar a busca por respostas, por indicações sobre o caminho que me leva a mim mesma. É, minha alma é inquieta... e muitas vezes se esquece de que não há algo a ser alcançado senão o próprio caminhar em riso largo. Descanso sou eu que me dou quando permito que a busca seja um jeito de ser sem ter alvo, mas tendo apenas a respiração no agora, no não saber, como quem é criança e sabe, sem saber, que sossegar na dúvida é uma questão de fé. 

sábado, 17 de abril de 2010

Unidiverso

Reverencio tudo o que é natural. Inebrio-me da aventura de descobrir novos perfumes e tons nas matas do cerrado. Bichos escondem-se, disfarçam-se ou reluzem. Bicho-pau e vagalume. Canto e silêncio. Sons de paz, sons de assombro. Tudo é generosidade infinita, é alimento, é remédio. Tudo transborda beleza na infinidade de texturas, traços e arranjos geométricos. Caos, harmonia, sincronicidade, ritual, construção, desconstrução, renovação. Chuva fina, tempestade. E tudo me remete à Mãe. Mãe que nos dá esse colo da terra, esse berço das águas, esse afago do vento. Para descanso do calor, o frescor da sombra. Para passagem do tempo, o percurso circular, as fases da lua. Sinto vertigem quando penso no espaço, na infinitude do universo, na distância dos astros. Eu grão, eu lapso, eu átomo. Tudo é mistério. Pulsação. Pó de estrela. Pó da terra que empoera meus pés. Eu todo, eu galáxia, eu sem fim cá dentro de mim.

 

quarta-feira, 7 de abril de 2010

audácia louvável

Ação ou qualidade do ousado - diz o dicionário -, audácia louvável, atrevimento. Impulso que leva a realizar atos difíceis ou perigosos.  

Ousadia, quero conhecer-te de perto.

sábado, 13 de março de 2010

Cuidados criados


Tem uma coisa que você não sabe sobre mim. Vez em quando vou ao mercado e compro flores. Rosas brancas e às vezes cor de rosa bem claro, com tons de verde. Corto seu talos, coloco-as em um vazo e adorno o criado à cabeceira de minha cama. Olho para as flores e sinto-me feliz. Feliz por me oferecê-las e mais feliz ainda porque elas existem. E existiriam mesmo se eu não as oferecesse à mim. 
Também experimento ir mais além: me aproximo e passo meu rosto em suas pétalas, sinto seu frescor e seu perfume. Não sei o que é melhor: gostar de flores ou cuidar de mim. Só sei que sou mais feliz depois que aprendi a viver assim.


sexta-feira, 12 de março de 2010

Adornos para o dia-a-dia

Há vezes em que o dia está menos bonito do que deveria. Então, entre um afazer e outro, cubro-me de encantos simples, adorno-me com poesias, com dança, com traços a lápis de cor, com o cuidar de minhas filhas e o admirar minhas amigas. Canto para, em minhas mãos, as louças dançarem misturadas com água e sabão. Ensaio melodias na kalimba, na flauta ou no tambor - não são os melhores toques, mas são os meus - e me vejo sendo feliz com estas mãos que o universo me deu. A gratidão preenche tudo. Assim, quando dou por conta, salvei-me da incapacidade de não ver a beleza do meu dia-a-dia.

terça-feira, 9 de março de 2010

A árvore das possibilidades

Por dentro também sou saudade e parte de mim vez em quando visita tudo aquilo que não colhi na árvore das possibilidades. Mas a cada dia vou aprendendo a amar minhas escolhas, afinal, não convém colhermos mais frutos do que somos capazes de saborear com total presença e paz, de forma que colher uma possibilidade significa, naturalmente, abrir mão de outras tantas. Assim, vou descobrindo, a cada passo, que apaziguar meu desejo é ser plena ao degustar o fruto que colhi. Afinal, saber quem sou e ser-me é a única possibilidade que é suficiente e está presente em todas as outras possibilidades.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Silêncio

Orai e vigiai, respirai e respirai.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Palavras

Se escrevo é porque preciso conversar comigo mesma. As palavras para mim são como sopros ao vento dissipando sentimentos, arejando a alma. Mas às vezes, vejam só, as palavras não saem, ficam atadas como nó dentro de mim e suponho que para se desatarem precisam de mais entendimento e autenticidade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Desejos da desesperança

É dificil me perdoar por sentir desesperança. Mas preciso abrir espaço para minhas verdades, e elas não são todas felizes. Sou responsável por tantas vidas e me sinto perdida e só na missão de cuidar de mim mesma. Hoje queria meu pai, queria deitar a cabeça em seu colo e ser criança de novo. Descansar de meus sonhos que não deram certo. Esquecer meus medos. Queria acordar com a vitamina de laranja com mamão que ele me levava à cama quando ía visitá-lo na minha infância. Queria aquela macarronada que só ele sabe fazer e sabia que era o prato que eu mais gostava. Queria me lembrar de que eu mereço cuidado, mereço palavras doces. E mereço compartilhar a vida com quem acredita em mim.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Oração ao Vento

É manhã fresca em que a chuva vai assentando a poeira da seca em Brasília. Em mim, vontade de paz e de alegria. Saudade de alma livre e mente vazia. Faço uma oração ao vento: que ele passe por mim carregando tudo o que não sou eu.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Possibilidades

Silenciar é cuidado de amor, convite a tatear com respeito a realidade que se interpõe. E no mais, nem é preciso dizer o óbvio. Há a possibilidade de deixar nossos olhos passearem soltos, vivendo alegres a oportunidade de, por alguns momentos, poder testemunhar a existência do outro. Também há a possibilidade de abrir os ouvidos e aproveitar para conhecer os tons de voz daquele que o amor tornou único. E há também a reverência, aquele ato interno que, sem palavras, diz ao outro: grata por existir, grata por existir, grata por existir...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Era isso...

Era um corpo para acolher o meu com balanço suave de rede, para me manusear com delicadeza, fazer compressa em minhas dores, acariciar minha pele como se o tempo estivesse sobrando, derramando-se vagarosamente da eternidade... como se cada milímetro fosse uma longa estrada.
Era sim, era isso que me salvaria.
Era um sorriso leve e um olhar que encontrasse o meu sem que houvesse dúvida.
Era sim, era isso que me salvaria.
Era uma mão estendendo um copo de água fresca, ao dar-se conta de minha sede esquecida por mim mesma.
Era sim, era isso que me salvaria.
Era um abraço que sussurrasse ao meu ouvido que quando se abraça é preciso respirar.
Era sim, era isso que me salvaria.

Receita do dia

Receita do dia: ninar a tristeza e acordá-la poesia.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Servir-se da fonte

"Quando tocamos o cerne da tristeza; quando nos sentamos com o desconforto, sem tentar remediá-lo; quando nos mantemos presentes na dor da desaprovação ou da traição e permitimos que ela nos suavise, é nesses momentos que fazemos contato com o bodhichitta*."
.
*Chitta significa "mente", e também "coração" ou "atitude". Bodhi significa "desperto", "iluminado" ou "completamente aberto".

(Pema Chöndrön, Os lugares que nos assustam)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Rogativa

Anjo que me visita, peço-te: abraça minha alma e me cuida, me acolhe como nunca e me faz dormir um tranquilo descanso, me faz acordar um tranquilo descanso. Me acolhe, me nutre, me acalenta. Me leve para deitar no colo da relva fresca e firme da mãe terra. E diga ao meu coração que a vida é bonita do jeito dela. Apazigue meu coração da espera, revelando-lhe o segredo de que o tempo é agora e que tudo está em seu propício lugar. Me conta, Anjo, tudo aquilo que sei mas ainda me deixo esquecer: que o amor é livre e desapegado, que eu sou forte e que os caminhos da vida são plenos de sabedoria. Acalme este peito com sopros de fé, dê-me a mão e ilumine meus caminhos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

o que é real?

Caminho a passos lentos na minha estrada de todo dia. Desejo de enraizamento. Tentantiva de no próximo passo descobrir tudo o que não sei sobre mim. Quem sabe a paisagem torta do cerrado possa me dizer? Quem sabe um evento natural, um sinal, me informe o sentido de estar aqui? Olho o céu, e a questão fundamental ressoante: quem sou eu? E a questão seguinte: como nós, humanidade, suportamos nos esquivar desta pergunta? Constatação dilacerante. Mas a rotina me espera, e não sou de fugir. Retorno. E já não me é possível mergulhar sem agonia na névoa do auto-engano. E no meio de tudo o que me cerca não cessa a pergunta: o que é real? O que é real? O que é real?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

precisão

desejo um dia verde-maçã, risos e leveza, essências suaves, toques em número não mais que o suficiente, uma distância que me permita sentir-me individual, nada que exceda à delicadeza dos meus sentidos, sons muito suaves, silêncios quebrados por milagres, respingos de chuva passageira em meio ao sol, sombra de árvore, ouvir minha respiração, movimento de pálpebras, cuidado de amor, troca de gentilezas silenciosas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Urgente e sem pressa

fotografos Zé Diogo e Diamantino Jesus


É urgente. Mergulhar. No mar. De mim. É urgente. Ser assim. Tocar. Dançar. Parir. Me. Ser. É urgente. Não repetir. É urgente. Encontrar. A palavra. Que diz. Tudo. O que for. Necessário. Para revelar. Me. Ser. A mim. Ser. Assim. É urgente. Água. Fria. Para acordar. No mergulho. Despertar. Nascer. É urgente. E. Sem pressa. É agora.
Foto de Magal
www.olhares.com/magal
Sonho que sou livre. Depois de acordar posso me demorar em mim, reconhecer minha pele e sentir as texturas do novo dia. Sentir o vento é minha brincadeira. Beber água é minha festa. E meu trabalho é diferenciar os tons de azul do céu. Respirar é meu alicerce. Me sou enfim.

Dias assim

Passo olhando o dia e me perguntando porque tudo não está tão bonito quanto a pouco tempo eu via. Busco minha respiração, mas não consigo respirar o agora. Mais uma vez adio-me. É... a vida tem dias assim, que acordam querendo andar mais devagar, não ir pro mesmo velho e conhecido lugar. E, se não há como escapar...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Adolescencias

Conheci de perto seus olhos de menino confuso querendo provar que sabia das coisas. Eles ficaram em mim como que plantados. Sentada à beira de sua cama com toda a adolescência de meus treze anos, ouvi a música cantada por Caetano que você escolheu para me presentear de encanto. E, se não soube naquele momento amar o homem que nascia, guardei para sempre dentro de mim o menino que tocou os seios que brotavam em minha menina ávida por descobrir o mundo. Momentos que vestiram-se da eternidade das coisas que chegam cedo em nossa vida e acontecem sobre terra fértil e inocente, para depois ficarem gravadas nas páginas azul-amareladas de nossa alma-memória. Mais tarde o desencontro fácil dos mil caminhos possíveis da juventude que se abre. Assim você se foi, aproveitando-se do meu 'não saber de nada' para ganhar um amor pequeno nascido da culpa de quem não soube cuidar da jóia preciosa que era você, a mais preciosa do mundo porque tinha um sorriso com um coração ao fundo. E pela intensidade daquele meu querer só penso que para minha menina salvar-te pelo amor era o caminho para salvar a si própria. E, depois, doída por não ter experimentado nenhuma segundo dessa existência em real encontro entre meu amor e o seu - porque nos amamos em tempos diferentes -, depois de ter trocado o amor a mim pelo amor a ti, enfim, sai em busca de me salvar por outros meios, porque me entregar sem receber o seu olhar pela manhã já me parecia uma forma estranha de vida. Assim, meu amor que resistia a morte, aos poucos foi encontrando o caminho da transformação: nem sei como, de repente percebi - certa de que era melhor assim - que te via como a um meio-irmão. Daqueles que a gente brinca tanto na infância e depois se torna distante porque cresceu e cada um achou seu caminho. Sigo então repleta de gratidão pelo caminho que encontrei: uma união de companheirismo e amor que não desistiu até aprender que estamos todos sempre aprendendo. E te vejo ainda perdido procurando tantas coisas fora de si. Constatações do encontro ao acaso - presente que a vida me deu - quando eu estava curada a ponto de te dizer que sentia saudades de ti. Algumas palavras, resumo de nossas vidas. Frases soltas evidenciam que você ainda não sabe a beleza que tem. E eu tão feliz sem querer transparecer, agradeço por dentro o rumo que a vida me deu. Depois me despeço sentindo que queria ver o menino confuso procurar seu caminho e abrir passagem nova para o homem que cresceu. Assim é meu bem-querer: sentimento que eternamente nutre o desejo de te ver feliz onde quer que esteja.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O mundo de Pati

Papéis coloridos me contam sobre mil formas de ser e convidam meus olhos para um mergulho nos escritos de Pati. Traços e fotografias misturam-se com outras formas d'ela contar-se ao mundo. Detalhes delicados da história de seus passos, coleção de segredos protegidos pelas quatro paredes de uma caixa de sapatos encapada de estampas. Testemunhá-la é assim... degustar belezas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Costurando minhas lembranças

Lembro de minha mãe à máquina de costura e eu no chão brincando e olhando suas costas debruçadas, seus pés dançando no pedal, sua atenção no caminho da linha. E depois, as roupas prontas dependuradas, todas lindas para os meus olhos de criança. Devia ser proibido roupa ser feita em fábrica. Todas as peças de roupa do mundo deveriam vir de uma casa de costureira, cada peça um prato de comida para um filho de uma mulher, uma artista-mãe que cria roupas e filhos ao mesmo tempo. Na vitrine veríamos um modelito com um escrito: "peça produzida por Maria mãe de Luizinha, entre o leite da manhã e o prato do meio dia, num feveiro chuvoso". Assim, poderíamos nos vestir de significado. Ah! Algumas peças também poderiam vir da casa do alfaiate, aquele indivíduo do qual todos ouviram falar por fazer algum terno de algum avô, mas poucos conheceram um. Pelo que já ouvi falar, devemos respeito a esses senhores. Minha mãe conta que um alfaiate a ensinou a fazer caseado, fazendo-a exercitar por dois meses antes que pudesse alinhavar o primeiro em um terno. Então fica assim, aos alfaiates meu respeito, mas às costureiras meu amor, afinal eram as costas de uma costureira que me olhavam enquanto eu brincava.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

abismos do adeus

Abismos de mim onde encontro todos os escuros e me faltam todos os sentidos. Abismos tão profundos deixados pelas ondas do 'de repente' que vêm e mudam tudo, deixando um novo incerto, meio vazio na almacoração que descansava tranqüila balançando em sua rede tão bem trançada. De repente tudo branco... folha de papel esperando o primeiro risco da primeira letra da próxima palavra da nova história de minha vida. Soa mais uma vez o silencioso canto do tempo: tudo passa... nesse eternoinfinito vai e vem. E a única escolha: deixar a onda levar, o trem partir, o dia dormir, o tempo passar. Tempo... engraçado esse tal sujeito... tão amigo dos abismos do desconhecido... do adeus. Vai! Segue! Toma teu percurso, que eu ajoelho e, lágrimas correndo, rezo o terço do desapego.

domingo, 20 de julho de 2008


Foto: Cadu Cinelli
g
cada um olha pr'um lado
mas bem juntinhos
p'ra aquecer o desencontro

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Nenhum

Nenhum lamento e nenhum minuto de tristeza
Sou mais forte do que essa correnteza

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Prato insosso

Receita que ninguém quer preparar é o prato insosso de um dia comum que se vai engolindo à colheradas. Mas a iguaria do dia comum certamente faz seus milagres. No meio de seus dissabores percebemos um lado irremediável da mais crua realidade e, obviamente, digerimos as mais comuns verdades: talvez a paixão seja mesmo uma invensão, passamos muitas horas alimentando ilusão, o filet à parmegiana do Beirute não vale um tostão...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Oração ao desejo

Não querido desejo, hoje não. Hoje deixo o ontem levar o que apenas a ele pertence e passo intacta pela armadilha de querer eternizar aquele tal momento ou sensação. Escolho caminhar de coração leve, sem me aprisionar às tão queridas lembranças que fingem-se de bom alimento à minha alma. E por falar em alma... dance ao vento, sopro de vida que em mim habita! Deixo-te livre do árduo trabalho de aprisionar outras almas. Hoje todo saboroso e perfumado momento morador do passado não receberá visitas. Não querido desejo, hoje não. Hoje tu definitivamente perdeste-me para o agora. Amém.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Circo colorido

Circo colorido, na beira da esquina
Circo colorido, de minha cidade de menina

Circo colorido, aí dentro o que que tem?
Tem palhaço e alegria, e só volta ano que vem
Circo colorido, aí dentro o que mais tem?
Tem cambalhota e gargalhada, a corda bamba vai e vem

Circo colorido, aí dentro o que mais tem?
Tem carrossel de fantasias, e só volta ano que vem
Circo colorido, aí dentro o que mais tem?
Tem frio na barriga, o trapézio vai e vem

Circo colorido, deixe-me ver lá dentro o que que tem?
Menina... veja bem...

Circo colorido, aí não posso ir
Circo colorido, no meu sonho você vem?

Circo colorido, fecha o olho ele vem
Olha a colorida tenda... em sua porta de alegria a menina se adentra

Musica de risos, cabalhotas no ar
De roupas coloridas qualquer um pode voar
Bolinha vermelha salta de cá pra lá
É o nariz do palhaço que não consegue parar

O olho? Estatalado do tamanho do elefante!
E (respirar...) que respiração ofegante!

Mas o espetáculo já vai acabar
Amanheceu o dia, tem que acordar
Pula da cama a trapezista menina
Continua a alegria quando o circosonho termina

Circo colorido, no meu sonho ele vem
Corre a menina contar, lá dentro o que que tem

Musica de risos, cabalhotas no ar
De roupas coloridas qualquer um pode voar
Bolinha vermelha salta de cá pra lá
É o nariz do palhaço que não consegue parar

O olho? Estatalado do tamanho do elefante
E (respirar...) que respiração ofegante!

Contato

contato com tato contato com tato contato com tato contato com

Sabor saber

Sabor
Saber da língua

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Vou eu beijar esse chão

Se houver uma próxima vida
Peço a Deus nascer no sertão
Andar no canavial
Olhar no olho do irmão

Beber da tristeza da seca
Sem nunca maldizer o meu chão
Agradecer a Deus todo dia
Por meu pequeno quinhão

Mas nesta vida ainda
Vou eu beijar esse chão
E lavarei a mão calejada
De um trabalhador do sertão

Deus não me nasceu no sertão
Mas, na voz dos poetas
Sua gente e sua terra
Nasceu no meu coração

Até aqui

Até aqui, sagrados meus passos
Sagrados caminhos, sagrados abraços
Sagrados descompassos
Caminhando, caminhando
Fiz, desfiz e refiz laços
Caminhando, Caminhando
Encontrei o começo de outro passo

terça-feira, 10 de junho de 2008

Existir, verbo intransitivo

Tantas lições e ainda não me convenci de que existir, verbo intransitivo, conjunga-se sem complemento. Logo eu, que me considero até relativamente boa na Lingua, deveria não mais insistir em querer só existir com o outro ou para o outro. Existo porque existo, digo a mim mesma, com ou sem testemunhas e mesmo sem complemento. Que lição difícil! Todo dia tento...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

hoje acordei

Hoje acordei e resolvi resistir ao impulso de consertar o que disse ontem e que depois julguei ter dito errado. Decidi ficar com o errado, respirá-lo. Descobri então que não havia nada de errado além de um tolo medo de não gostarem do que sou nas palavras que saem de minha boca. Não! Não vou sanar as consequências de minha espontaneidade, vou vivê-las como que vivendo uma verdade que quer fluir de dentro de mim ou quer mudar dentro de mim, não mais fora, que por fora nada se pode mudar. O lado de fora é lugar de remendos. Escolho, então, tecer pelo lado de dentro.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Confissões

Sinto as sensações e ensaio confissões. Evidencio: sei pouco sobre mim. Organizo minhas gavetas para reorganizar minha alma. As coisas arrumadas não transmitem medo: acordo cedo.

sábado, 17 de maio de 2008

Poesias

Vivem em mim
Vivo delas (nelas)
De Coralina Cora
De Rosa Guimarães
Acordam em mim
Sonho dormido
E quando acordo
Fico querendo imitar
Pegar palavra jogada no ar
Fazer palavra virar gente
Lugar Cor Dor Suor Sabor
Do Café quente de goiás
Do buritizal do sertão

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Hoje

Dia fresco ensolarado claro

Batem à porta
Histórias inscritas em minha alma
(Não posso atender)

Hoje preciso manter a porta trancada
Então fecho a porta pelo lado de fora
E fico aqui vivendo
Dia fresco ensolarado claro

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Dia de hoje

Dia chuvoso
Raios de sol entre as nunvens
Que cheiro bom de manhã fresca
Gratidão
Respiração
Esse dia me diz alguma coisa, meu Deus!
O que?

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Para começo de conversa, uma história.

Um homem foge do tigre até chegar a um precipício. Balançando-se num galho sobre a beira do precipício, o homem olha para baixo e vê outro tigre. De repente, dois ratos, um branco e outro preto, começam a roer o galho. Agarrando-se à vida o homem vê um suculento morango ao alcance de sua mão. Ele o pega e o põe na boca.
"Como era doce o seu gosto!" diz Buda.