quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Adolescencias

Conheci de perto seus olhos de menino confuso querendo provar que sabia das coisas. Eles ficaram em mim como que plantados. Sentada à beira de sua cama com toda a adolescência de meus treze anos, ouvi a música cantada por Caetano que você escolheu para me presentear de encanto. E, se não soube naquele momento amar o homem que nascia, guardei para sempre dentro de mim o menino que tocou os seios que brotavam em minha menina ávida por descobrir o mundo. Momentos que vestiram-se da eternidade das coisas que chegam cedo em nossa vida e acontecem sobre terra fértil e inocente, para depois ficarem gravadas nas páginas azul-amareladas de nossa alma-memória. Mais tarde o desencontro fácil dos mil caminhos possíveis da juventude que se abre. Assim você se foi, aproveitando-se do meu 'não saber de nada' para ganhar um amor pequeno nascido da culpa de quem não soube cuidar da jóia preciosa que era você, a mais preciosa do mundo porque tinha um sorriso com um coração ao fundo. E pela intensidade daquele meu querer só penso que para minha menina salvar-te pelo amor era o caminho para salvar a si própria. E, depois, doída por não ter experimentado nenhuma segundo dessa existência em real encontro entre meu amor e o seu - porque nos amamos em tempos diferentes -, depois de ter trocado o amor a mim pelo amor a ti, enfim, sai em busca de me salvar por outros meios, porque me entregar sem receber o seu olhar pela manhã já me parecia uma forma estranha de vida. Assim, meu amor que resistia a morte, aos poucos foi encontrando o caminho da transformação: nem sei como, de repente percebi - certa de que era melhor assim - que te via como a um meio-irmão. Daqueles que a gente brinca tanto na infância e depois se torna distante porque cresceu e cada um achou seu caminho. Sigo então repleta de gratidão pelo caminho que encontrei: uma união de companheirismo e amor que não desistiu até aprender que estamos todos sempre aprendendo. E te vejo ainda perdido procurando tantas coisas fora de si. Constatações do encontro ao acaso - presente que a vida me deu - quando eu estava curada a ponto de te dizer que sentia saudades de ti. Algumas palavras, resumo de nossas vidas. Frases soltas evidenciam que você ainda não sabe a beleza que tem. E eu tão feliz sem querer transparecer, agradeço por dentro o rumo que a vida me deu. Depois me despeço sentindo que queria ver o menino confuso procurar seu caminho e abrir passagem nova para o homem que cresceu. Assim é meu bem-querer: sentimento que eternamente nutre o desejo de te ver feliz onde quer que esteja.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O mundo de Pati

Papéis coloridos me contam sobre mil formas de ser e convidam meus olhos para um mergulho nos escritos de Pati. Traços e fotografias misturam-se com outras formas d'ela contar-se ao mundo. Detalhes delicados da história de seus passos, coleção de segredos protegidos pelas quatro paredes de uma caixa de sapatos encapada de estampas. Testemunhá-la é assim... degustar belezas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Costurando minhas lembranças

Lembro de minha mãe à máquina de costura e eu no chão brincando e olhando suas costas debruçadas, seus pés dançando no pedal, sua atenção no caminho da linha. E depois, as roupas prontas dependuradas, todas lindas para os meus olhos de criança. Devia ser proibido roupa ser feita em fábrica. Todas as peças de roupa do mundo deveriam vir de uma casa de costureira, cada peça um prato de comida para um filho de uma mulher, uma artista-mãe que cria roupas e filhos ao mesmo tempo. Na vitrine veríamos um modelito com um escrito: "peça produzida por Maria mãe de Luizinha, entre o leite da manhã e o prato do meio dia, num feveiro chuvoso". Assim, poderíamos nos vestir de significado. Ah! Algumas peças também poderiam vir da casa do alfaiate, aquele indivíduo do qual todos ouviram falar por fazer algum terno de algum avô, mas poucos conheceram um. Pelo que já ouvi falar, devemos respeito a esses senhores. Minha mãe conta que um alfaiate a ensinou a fazer caseado, fazendo-a exercitar por dois meses antes que pudesse alinhavar o primeiro em um terno. Então fica assim, aos alfaiates meu respeito, mas às costureiras meu amor, afinal eram as costas de uma costureira que me olhavam enquanto eu brincava.