quarta-feira, 16 de março de 2011

Poesia na calçada

Andando ontem pelo centro da cidade, passava por pessoas que olhavam para todos os lados e pareciam perdidas em seus pensamentos. Pareciam estar suspensas, num mundo que não era o concreto e nem o real, nem era o mundo interno delas. Pareciam sem lugar, perdidas, sem feições, sem presença, sem expressão. A correria era quase insana, as pessoas trombavam umas nas outras sem nunca se encontrarem, nem pelo olhar. Nada denotava presença, a não ser um casal bem velhinho, sentado em baquinhos do lado esquerdo da calçada. O velho estava de chapéu, cabeça baixa e olhos fechados. Tocava sanfona. Estava refugiado no universo que se expandia no vai-vem dedilhado de seu instrumento - desejei refugiar-me ali também. A velha recostada em seu companheiro, assistia ao mundo incerto e passageiro ao som da música certa e conhecida. Em frente a eles um caixote de madeira que aparava uma panelinha de alumínio amassada, que fazia as vezes de mão estendida esperando moedas. No meio da calçada, era a poesia que ninguém via. Era o alento da beleza em sua forma mais simples. Aquele velhinho não toca sanfona para ganhar moedas, pensei, mas sim ganha moedas para tocar. Uma situação é bem diferente da outra. Se ele tocasse para ganhar moedas, sua finalidade última seriam as moedas. Mas ganhando moedas para tocar, sua finalidade última é tocar. Assim pensei, mas estava enganada. Quando me aproximei mais, vi que a panelinha estava vazia e já era à tardinha. Compreendi, então. Aquele velhinho tocava sanfona simplesmente para tocar sanfona. A existência entoada naqueles sons acalentavam seu espírito e aquela rua de alma conturbada. A panelinha era apenas um disfarce humilde, recobrindo sua generosidade e igualando-o àqueles passantes que seguiam sem sentido ou direção. Na verdade os esmoleiros éramos nós que perambulávamos desordenadamente, perdidos. A moeda preciosa era aquela imagem musicada, abençoando o mundo, afagando os passantes, sustentando um fio de esperança no canto da calçada em frente à estação rodoviária de Brasília.

domingo, 13 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

Criação é oração

Fazer arte é uma espécie de devoção. 

Vi o rio

Foi hoje.
Olhei a água que saía da torneira e vi o rio. Vi mesmo! Como se o rio ali estive derramando seu percurso diante de mim. Imenso e curativo corpo d`água fresco, flexível e transparente. Quanta generosidade - pensei! -, o rio correr até onde estou e derramar-se na medida certa para saciar minha sede.